Friday, January 29, 2010

O caminho `a frente dos pés

O longo pontão dos contos de infância,
lá estava ele,
no mesmo sítio onde nascera.
Os velhos diziam que,
se nos sentássemos no seu único banco
tempo suficiente,
podíamos ver o mar a piscar-nos os olhos.
Levaste-me lá naquele dia sem saberes o que significava
para mim.
Senti que não precisava mais do olhar do mar porque
estavas lá.
Não encontrei o pontão no último sábado,
sozinho.
Aquele nevoeiro que tudo escondia...
Amanhã gostava de lá ir.
Sei que se nos perdermos juntos,
encontramo-lo.


Thursday, January 7, 2010

No andar

No número 25 há um gato, bigodes preso no seu espaço,
sem chave para a sóbria porta, porta velha de castanho,
cor dos dias do mês que corre.

Na rua esguia há um banco, banco de todo o tamanho vazio,
virado para dentro da loja antiga, contando os anos para trás,
fazendo dos olhos seu único fazer.

Atrás do jardim desenha-se uma janela, de quatro em quatro rectângulos espelhados,
de traço claro mas escondido traçado, onde há conversas que não existem,
onde peixes voam em direcção cega.

No antigo átrio deslizam murmúrios, veste-se a pele da tranquilidade educada,
dá-se passos num diálogo fantasma, esgueira-se por entre a imagem d'Ele,
à volta da fonte de esquecimento envenenado.

No fundo do copo sentado ao dia, enrolam-se palavras que saem repetidas,
de sim-sim e não-não casual, minutos que chamam nomes que se apagam,
de memórias tão memórias que se questiona o seu ser,
em cíclica novidade daquilo que não sai dali.

No ponteiro do relógio vejo que é tarde,
mas a ampulheta que comprei, diz que o hoje
ainda se poderá deitar com amanhã.
Enquanto se observam grãos a subir as escadas.

Wednesday, December 23, 2009

O dia de não-24

- Hoje há cinzento.
- Sim, sim... Sim!
- Porque viemos correr? Olha só o mar.
- Por isso mesmo e, se tivermos sorte, ainda uma onda nos apanha.
- Com este vento... Parece que estão a lavar o mundo e a deixá-lo escoar para o mar.
- Que coisa.
- Sim, se não consegues limpar as ideias, esconde-as, em água. Debaixo do azul, ninguém vê se és feio.
- Mas não és.
- O ser esquece-se em 5 minutos e muda consoante a vontade. Assim que piscares os olhos vais esquecer-te do meu nome.
- Parvo. Sei como te chamas.
- É sinal que ainda tenho uns segundos até não te lembrares mais.


Tuesday, December 22, 2009

Se te

Roubei ao mundo

a impotência que tenho,

cortei a língua para cegar as palavras,

chamei ao dia só Hoje

para não ter de pensar na sua cor,

abracei em vazio ruas

para me lembrar de ti.



Calço apenas o meu número

e tento manter os olhos rente ao chão,

evitando olhar para baixo.

Wednesday, October 21, 2009

Cinza




De mala aos ombros

encetava pela floresta

confiante


sentada no chão estava uma falha

e ali, com os olhos

ao comprido me deixei



confortável esperando

Wednesday, July 22, 2009

De costas no chao

Hoje não queria ser quem sou.

Hoje não queria ser ninguém.

Porque hoje, sem dormir, descubro o tempo que demora a cair da janela.



Quando o silencio que imperava devia por vezes retomar o seu lugar no trono.

Sunday, July 12, 2009

Degraus

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Quando até o vazio permanece inerte.

Quando se contam os minutos por medidas de um copo que vai acabando.

O tempo nao se esgota.

Como tudo sao segundos e o nada se encosta `a espera.


Tuesday, July 7, 2009

Os segredos escondidos por palavras, `a vista.

Photobucket

"A amizade é como o amor. A gente encontra um homem e fica amigo de infancia. Descobre um passado comum e há um princípio de vasos comunicantes que começa ali."

António Lobo Antunes



Cá eu, vou construíndo um jardim nas traseiras da minha ininteligibilidade.